sexta-feira, 30 de março de 2012

Jovemguardeando

MARCIANITA
Esperada marcianita
Asseguram os homens de ciência
Que em dez anos mais, tu e eu
Estaremos bem juntinhos
E nos cantos escuros do céu falaremos de amor
Tenho tanto te esperado
Mas serei o primeiro varão a chegar até onde estás
Pois na Terra sou logrado
Em matéria de amor eu sou sempre passado pra trás
Eu quero um broto de Marte que seja sincero
Que não se pinte, nem fume
Nem saiba sequer o que é rock and roll
Marcianita, branca ou negra
Gorduchinha, magrinha, baixinha ou gigante
Serás meu amor
A distância nos separa
Mas no ano 70 felizes seremos os dois
(Ou nos anos 2010, 20, 30...)
((Sérgio Murillo))

quarta-feira, 28 de março de 2012

Escarrar-se


Pude sentir a saliva acumulada debaixo da língua, oferecendo-me aquele gosto de apatia, que mal me deixava agir ou pensar. Não via as minhas cores no reflexo do espelho. Eu já não me pertencia, já não podia ser. E passei a não ser, segundo após segundo. Sorriam-me os dentes na boca e entupiam-me daquele tanto de não ser nada.
O sol pela manhã revelava o marasmo da minha sombra; sombra de carne, osso e sangue. Sangue que parecia estagnado dentro das minhas veias. Só podia sentir a minha vida, inflamada na boca do meu estômago. E, por vezes, eu quase que a expurgava. Só o não fazia, pois ela já não era minha.
Nas calçadas, caminhavam meus pés como que por instinto, buscando chegar a caminho algum. Se as pessoas passavam por mim, bom dia eu já não dava, apenas exibia -sem querer- a cara que me vestiram. E assim, passava.
As pessoas se entrecruzando faziam míopes os meus olhos, que naquela altura já não conseguiam mais brilhar. O som, urbanado dos carros, invadia – sem alardes - os meus ouvidos; fazendo ecos que eu não podia identificar ao primeiro estímulo. Até o barulho de chuva que fazia o irrigador, e que outrora eu apreciava, causava-me estranhezas. Todos aqueles ruídos se dissipavam no vácuo que eu havia me transformado.
Sentia-me o desentusiasmo minando o ímpeto de tempos passados, que, como uma água corrente, desaguaram-se em nostalgia morta. A verdade é que quando eu achei que me bastava, nem a mim eu tive.  E lá ia eu – com o meu andejado maquinal - atrás dos meus objetivos e fantasmas de vida. Objetivos que se inertiaram em meu ser, que já não o era, e fantasmas que eu alimentava com os meus medos.
Os cacos de minha alma, represados à margem daquele corpo, que já não me pertencia, apontavam-se para despertar. Eram os espasmos de vida, que o mundo obrigava-me a ter: aquelas saídas que não existem, mas que te torturam para tal.
A esperança que tanto mendiguei a mim, e por vezes, fui ignorado, parecia nascer num deserto, como um cacto espinhento, que perfura a sua própria superfície, mal cabendo-se em seu corpo. Como se a alma explodir-se-ia à vida. E como combustão daquela inconsciência, eu escarrei...

((Br. Figueira))

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Silêncios

Não era silêncio de constrangimento,
Nem era aquele silêncio de – tudo bem silenciar –
O som de nada daquela noite - era o silêncio da indiferença -
Da pseudo-indiferença encapuzada de indiferença
- Som que já nem sei se serei capaz de ouvir novamente –
Foi assim. Assim que ouvi aquele penúltimo silêncio,
- Torturante -
Daquela noite quente de lua cheia,
[silêncio]
Que prenunciara um último silêncio,
- Arrastado por uma reticência sem respostas –
...

((Br. Figueira))

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Vida que insinua

Mas é que a vida se insinua.
Se escancara.
De que adianta tapar os olhos se desnudos estamos?
Precisamos de coragem pra olhar as verdades de nossa alma.
E coragem pra enfrentá-las.
Se toca tango.
Dancemos tango.
Se toca rock.
Dancemos rock.
Se toca valsa.
Dancemos valsa.
Se os lábios tocam.
Se os corpos tocam.
Se os corações tocam.
Em um compasso só.
É a vida que em si é nua...

((Br. Figueira))

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pessoando II

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."


((F. Pessoa))

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Leminskiando

Introspecção

“A noite - enorme, tudo dorme, menos teu nome.”

((P. Leminski))

Música Lenta



Se o disco ainda roda

      Na agulha da vitrola,

   Dance

        Ou descanse.

((Br. Figueira))